Finanças & vida prática
CDB de 110% do CDI não rende 110% ao ano. O que esse número quer dizer?
O percentual chama atenção porque parece uma rentabilidade gigantesca. Na verdade, ele diz quanto o CDB acompanha uma taxa de referência — e ainda faltam imposto, prazo, liquidez e risco na comparação.

Quando um aplicativo oferece um CDB que paga “110% do CDI”, os 110% não são a taxa que seu dinheiro vai render em um ano. Eles são um multiplicador aplicado ao CDI. É uma diferença pequena na frase e enorme na conta.
A confusão é compreensível: no varejo, porcentagem costuma significar desconto, aumento ou retorno direto. Na renda fixa pós-fixada, porém, é comum encontrar um percentual de uma referência. Para comparar duas ofertas, primeiro é preciso descobrir o que está sendo multiplicado.
Por que o CDI aparece em tantos CDBs?
CDB é a sigla para Certificado de Depósito Bancário. Na prática, o investidor empresta dinheiro a uma instituição financeira e recebe uma remuneração definida nas condições do título. Em CDBs pós-fixados, essa remuneração pode ser expressa como um percentual do CDI.
O CDI funciona como uma referência central para a renda fixa brasileira e costuma caminhar muito perto da taxa básica de juros. Por isso, dizer que um título paga 100%, 105% ou 110% do CDI cria uma régua simples para comparar produtos pós-fixados.
O número mais alto na vitrine não conta sozinho quanto dinheiro chegará ao seu bolso.
Bruto e líquido são duas histórias diferentes
Depois da rentabilidade bruta entra o Imposto de Renda. A tabela oficial da Receita Federal para 2026 mantém, para aplicações de renda fixa em geral, alíquotas regressivas conforme o prazo: 22,5% até 180 dias, 20% de 181 a 360 dias, 17,5% de 361 a 720 dias e 15% acima de 720 dias.
O imposto incide sobre o rendimento, não sobre todo o valor aplicado. Assim, dois CDBs com a mesma porcentagem do CDI podem entregar resultados líquidos diferentes se forem resgatados em prazos diferentes.
Até 180 dias
22,5%
de IR sobre o rendimento.
Acima de 720 dias
15%
de IR sobre o rendimento.
Antes de escolher pelo percentual
Leia quatro linhas da oferta
- Rentabilidade: qual percentual do CDI o título paga?
- Liquidez: dá para resgatar antes do vencimento ou o dinheiro fica preso?
- Vencimento: quando o título termina e o dinheiro volta para a conta?
- Emissor: qual instituição está tomando seu dinheiro emprestado?
Mais CDI pode vir acompanhado de menos liberdade
Um CDB com percentual maior pode exigir que o dinheiro fique aplicado até o vencimento. Outro, pagando menos, pode oferecer liquidez diária. Para uma reserva destinada a imprevistos, poder acessar o dinheiro rapidamente pode ser mais importante do que alguns pontos adicionais do CDI.
Também não é estranho que instituições diferentes ofereçam taxas diferentes. O retorno prometido é parte das condições usadas pelo emissor para captar dinheiro. Por isso, rentabilidade deve ser lida junto com prazo e risco — não como um placar isolado.
Uma comparação melhor começa pela finalidade
Se o dinheiro pode ser necessário amanhã, liquidez pesa muito. Se existe uma data definida para usar o valor, o vencimento precisa combinar com ela. Só depois faz sentido comparar percentuais do CDI e estimar o resultado líquido.
A B3 publica simulações que deixam essa diferença visível: CDBs de 90%, 100%, 102% ou 120% do CDI produzem retornos distintos, e o resultado líquido fica abaixo do bruto quando há imposto. O percentual do CDI é uma peça importante — só não é a única.
O jeito mais simples de não se enganar
Ao encontrar “110% do CDI”, leia mentalmente: “este título rende 10% a mais que a variação do CDI usada como referência”. Depois confira quanto tempo o dinheiro ficará aplicado, se há resgate antecipado e qual será a tributação.
Essa tradução tira o efeito do número grande e devolve a pergunta que realmente importa: dadas as condições deste título, ele serve para o que eu quero fazer com este dinheiro?